Vinte e três horas. Estou numa taverna chamada X-man, no centro da cidade. A luz azul é fraca, quase penumbra. Alguns holofotes pontuais com spots coloridos iluminam os ambientes que possuem cadeiras zoofilomórficas e mesas vegetalizadas. De vez em quando elas se movimentam e te englobam como se fosse inseto. Não dá para ver muito bem as mesas ao lado por causa da bruma. Meninas circulam por entre as mesas. É um bar de garotas mutantes e strippers fetichistas. Aqui você encontra todas as versões de personagens X-Men em versão mondo bizarro. Clones de personagens de HQ. Emma Frost, Tempestade, Vampira, Kitty Pride, Jean Grey, Mística... Submundo Marvel total. Esconderijo de pervertidos nerds e depravados com tara para mutações. Há mulheres com rabo, com língua de cobra, fantasmáticas, líquidas, anfíbias, aladas, lobulheres. E por aí vai. O X-man é uma taverna para sujeitos com inclinação para o surreal. A casa possui decoração gibizesca, cheio de referências apocalípticas. Por fora, parece réplica da escola do Professor Xavier. No teto uma imensa Fênix grafitada, com as flamas lambendo as luminárias neoclássicas. Papel de parede com páginas de gibis e pterodátilos engaiolados. Fazem um som terrível. As garotas-x passeiam por entre as mesas com suas roupinhas justas coloridas. De vez em quando mandam beijinhos, às vezes sentam no colo. Não sei como vim parar aqui, e também não lembro meu nome. Há um projetor de filme super 8 dentro da minha mente, vomitando imagens. Lembro de tiros, uma garota morta numa cama de casal renascentista, um sujeito taciturno fugindo pela janela. Talvez tenha sido um pesadelo. Talvez alucinações. Sobre minha mesa vários copos de drinks acabados. Cada um num copo de tamanho diferente. Cada um cabe dentro do tamanho do outro. O menor é pequeno pacas, quase do tamanho do meu dedo mindinho. Pelo jeito já bebi bastante. Talvez eu seja um detetive investigando um crime. Afinal uso roupas de detetive. Gravata fina listrada, camisa de manga longa dobrada, calça social e chapéu sobre a mesa. Chapéu típico de detetive de filme noir. Olho para a mesa ao lado e vejo um piá gordo com óculos de aros grossos, bochechas rosadas e camisa quadriculada. A Vampira está no colo dele. A moça brinca com os cachos de cabelo grisalho enquanto abre o zíper do uniforme revelando os peitões siliconados. Numa outra mesa, vejo uma mulher-maravilha depressiva, bebendo vinho. O que um personagem da DC estaria fazendo numa taverna Marvel? A Mulher-maravilha está totalmente fora do contexto. Daqui, parece um tanto desfocada, inclusive, porque a luz é fraca. Os sentidos me traem e minha visão tá turva. Agora passa um sujeito baixo e peludo. Ele é menor que a mesa e seus braços são tão longos que arrastam no chão. Mato o resto de rum do copo num único gole.
Olho para o bolso de minha camisa e descubro um pequeno envelope pardo. Um mini-envelope, menor que o tamanho de um cartão postal. Dentro do pequeno envelope, outro menor ainda. A luz azulada da minha mesa está mais fraca que as outras. Abro o envelope mínimo e encontro uma chave embrulhada num pedaço de papel com um endereço escrito em caneta BIC azul: Praça 55, módulo 22. Uma pequeníssima chave prateada. Não faço idéia de onde seja, nem como veio parar no bolso de minha camisa. Tento lembrar onde eu estava antes de vir parar aqui. E o super 8 ligado: tiros, garota de camisola transparente em cama de casal renascentista, um sujeito taciturno usando chapéu fugindo pela janela. Cortina transparente esvoaçante. Muito sangue. Borrifo na parede formando um coração. Porra! Um borrifo de sangue em formato de coração.
Agora me lembro de uma imensa orelha onde encontrei as filipetas X-man. Uma delas tinha a foto da Jean Grey, com o endereço da taverna. Não sei o que isto significa. Uma orelha flutuando no deserto. Quem é o sujeito taciturno que foge pela janela, abandonando a cena do crime?
A Kitty Pride pergunta se desejo mais um elixir Havana. Digo que sim, com gelo e sem raiz forte. Não me lembro de ter bebido os outros. Há quatro copos vazios sobre a mesa. Um menor que o outro. É como se meu dia tivesse começado agora. Vejo um revestimento de tecido verde musgo dobrado no banco da frente. Talvez seja meu, combina com o visual de um detetive. Revisto-o. Sinto um objeto pesado no bolso interno e descubro que é um pacote de envelope pardo amassado com uma pistola automática prateada dentro. Toda ensangüentada. Uma arma no bolso do meu revestimento. Quem teria colocado ela ali? Eu nunca tive uma arma, nem sei atirar. Está suja de sangue. Revisto o cartucho e está carregado. Preciso descobrir quem tramou isso tudo. A luz é fraca na minha cabeça. O foco está mais para abajour de insetos. Pequeníssimos dragões libélulas sobrevoam o salão. Meus batimentos cardíacos aceleram. Algo de muito sinistro aconteceu e eu não faço idéia o que seja. Lembro que possuo uma tela portátil. Procuro no bolso da calça e a encontro. Procuro no catálogo de endereços o nome de minha esposa. Tento uma conexão, mas cai na mensagem gravada.
Kitty Pride serve meu elixir. Eu agradeço e pergunto onde é o evacuador. Do outro lado do salão – ela me diz, exibindo um sorriso fluorescente. A mulher maravilha desfocada acena para a garçonete e pede mais uma taça de vinho. Começa um show no palco central. Um Noturno endiabrado com pele pintada de azul surge de baixo do palco, através de um elevador. Ao lado dele estão Mística, Tempestade e Emma Frost em trajes sensuais. Sobe junto uma espessa fumaça de gelo seco. Preciso chegar até o evacuador para jogar um líquido na cara. Mas fica difícil atravessar por que os nerds devassos invadem o salão, saem de suas mesas e chegam perto das dançarinas x-women. Emma Frost faz pole-dance enquanto a Tempestade evoca nuvens escuras e trovões em volta do palco. Um furacão absurdo faz os papéis, filipetas e guardanapos voarem. Voam também algumas notas de vinte e cinqüenta reais que os clientes jogaram sobre o palco. Então o Noturno pauzudo esfrega sua piroca hieroglífica na pele azul da Mística, que se agacha e faz um sexo oral mutante totalmente libidinoso nele. Depois Emma Frost arremessa partes de seu minúsculo biquíni glacial para os nerds que quase se matam para pegar. Os garotos jogam-se no chão, derrubando seus óculos e comunicadores, totalmente desesperados. Puxam o pequenino tecido, um de cada lado. O mais forte acaba ficando com o pedaço de pano.
Estou agora no banheiro. Líquido na cara. Não reconheço meu rosto no espelho. Estou no corpo de outra pessoa e não me avisaram. Ou se avisaram, eu não me lembro. Pareço alguns anos mais velho. Minhas orelhas estão maiores do que as de um Basset Hound. Minha monolítica cabeça dói. Algo está assustadoramente estranho. Limpo o sangue das mãos na gosma incolor do aparelho. Não consigo lavar bem. Volto até a mesa. Pago minha conta com as notas que encontro na carteira, visto o revestimento, chapéu e saio.
Estou na região dos mais inóspitos centros de lazer da galáxia. Vagabundos e meliantes cruzam as calçadas num vai-e-vem blade-runnereano violento. Tento equilibrar-me dentro de um corpo estranho. A realidade parece alterada e desfocada. Meu corpo está alongado demais para o calçado que uso. Não sei dizer se a mulher-maravilha era real. Não faz sentido um personagem da DC dentro de um bar da Marvel. Veículos sucateados passam no sinal vermelho puxados por dinossauros. Uma hit-girl anã faz showzinho no sinal executando malabarismos com uma lança em chamas, depois passa um coturno entre os carros para arrecadar moedas. Atravesso na faixa, e vou em direção à Praça 55, o endereço escrito no papel. Talvez as respostas que procuro estejam lá.
Chego ao edifício 55. Olho para cima e vejo uma escada externa na parte da frente. Lembro da cena do chapeludo escapando pela janela. Talvez seja o assassino da garota de camisola transparente. Quem é a garota de camisola transparente morta? Não há porteiro no edifício. Tento o sensor e abre sem problemas. Subo as escadas. Há um rastro de sangue no segundo andar que leva até o módulo 22. Por precaução, pego a arma que encontrei no bolso do casaco. Engatilho-a. Não tenho habilidade com armas, nunca precisei usar uma. Como posso ser um detetive se não sei portar uma arma? Se eu for realmente um detetive, saberei desvendar este crime. Tento a chave do pequeno envelope na porta e o trinco gira. Finalmente as coisas começam a fazer sentido. Empurro levemente a porta que abre sem ranger. Talvez eu esteja mais perto da solução do mistério. Vejo passos de sangue no carpete da sala. Aparelho holográfico ligado. Marcas de sapato tamanho 41. Alguns porta-retratos abaixados – sinal de remorso. O assassino conhece a vítima. Sigo os sinais que levam até o quarto, tomando cuidado para não esbarrar em nada. Ando em silêncio, pois o assassino pode ainda estar aqui dentro. É certamente o mesmo quarto da projeção. Como posso ter imaginado isso tudo? Vejo a mesma janela aberta com cortina transparente esvoaçante. Olho para a garota morta e vejo que é minha esposa. Meu Deus! Co-autores invadem o apartamento repentinamente e me arremessam no chão. São muitos. Com coletes à prova de bala, espingardas, rifles. Ordenam-me largar a arma e rapidamente me algemam. Eu tento avisá-los que o bandido escapou pela janela – o sujeito taciturno usando chapéu. Mas eles não acreditam em mim. Falo do envelope pardo com a chave colocado no meu bolso, da arma ensangüentada, das filipetas X-Man. Eles parecem não querer me ouvir. Preciso de um advogado. Vai ser uma noite daquelas! Preciso descobrir quem filmou isso tudo.













