sexta-feira, 8 de abril de 2011

X-man



Vinte e três horas. Estou numa taverna chamada X-man, no centro da cidade. A luz azul é fraca, quase penumbra. Alguns holofotes pontuais com spots coloridos iluminam os ambientes que possuem cadeiras zoofilomórficas e mesas vegetalizadas. De vez em quando elas se movimentam e te englobam como se fosse inseto. Não dá para ver muito bem as mesas ao lado por causa da bruma. Meninas circulam por entre as mesas. É um bar de garotas mutantes e strippers fetichistas. Aqui você encontra todas as versões de personagens X-Men em versão mondo bizarro. Clones de personagens de HQ. Emma Frost, Tempestade, Vampira, Kitty Pride, Jean Grey, Mística... Submundo Marvel total. Esconderijo de pervertidos nerds e depravados com tara para mutações. Há mulheres com rabo, com língua de cobra, fantasmáticas, líquidas, anfíbias, aladas, lobulheres. E por aí vai. O X-man é uma taverna para sujeitos com inclinação para o surreal. A casa possui decoração gibizesca, cheio de referências apocalípticas. Por fora, parece réplica da escola do Professor Xavier. No teto uma imensa Fênix grafitada, com as flamas lambendo as luminárias neoclássicas. Papel de parede com páginas de gibis e pterodátilos engaiolados. Fazem um som terrível. As garotas-x passeiam por entre as mesas com suas roupinhas justas coloridas. De vez em quando mandam beijinhos, às vezes sentam no colo. Não sei como vim parar aqui, e também não lembro meu nome. Há um projetor de filme super 8 dentro da minha mente, vomitando imagens. Lembro de tiros, uma garota morta numa cama de casal renascentista, um sujeito taciturno fugindo pela janela. Talvez tenha sido um pesadelo. Talvez alucinações. Sobre minha mesa vários copos de drinks acabados. Cada um num copo de tamanho diferente. Cada um cabe dentro do tamanho do outro. O menor é pequeno pacas, quase do tamanho do meu dedo mindinho. Pelo jeito já bebi bastante. Talvez eu seja um detetive investigando um crime. Afinal uso roupas de detetive. Gravata fina listrada, camisa de manga longa dobrada, calça social e chapéu sobre a mesa. Chapéu típico de detetive de filme noir. Olho para a mesa ao lado e vejo um piá gordo com óculos de aros grossos, bochechas rosadas e camisa quadriculada. A Vampira está no colo dele. A moça brinca com os cachos de cabelo grisalho enquanto abre o zíper do uniforme revelando os peitões siliconados. Numa outra mesa, vejo uma mulher-maravilha depressiva, bebendo vinho. O que um personagem da DC estaria fazendo numa taverna Marvel? A Mulher-maravilha está totalmente fora do contexto. Daqui, parece um tanto desfocada, inclusive, porque a luz é fraca. Os sentidos me traem e minha visão tá turva. Agora passa um sujeito baixo e peludo. Ele é menor que a mesa e seus braços são tão longos que arrastam no chão. Mato o resto de rum do copo num único gole. 

Olho para o bolso de minha camisa e descubro um pequeno envelope pardo. Um mini-envelope, menor que o tamanho de um cartão postal. Dentro do pequeno envelope, outro menor ainda. A luz azulada da minha mesa está mais fraca que as outras. Abro o envelope mínimo e encontro uma chave embrulhada num pedaço de papel com um endereço escrito em caneta BIC azul: Praça 55, módulo 22. Uma pequeníssima chave prateada. Não faço idéia de onde seja, nem como veio parar no bolso de minha camisa. Tento lembrar onde eu estava antes de vir parar aqui. E o super 8 ligado: tiros, garota de camisola transparente em cama de casal renascentista, um sujeito taciturno usando chapéu fugindo pela janela. Cortina transparente esvoaçante. Muito sangue. Borrifo na parede formando um coração. Porra! Um borrifo de sangue em formato de coração.
Agora me lembro de uma imensa orelha onde encontrei as filipetas X-man. Uma delas tinha a foto da Jean Grey, com o endereço da taverna. Não sei o que isto significa. Uma orelha flutuando no deserto. Quem é o sujeito taciturno que foge pela janela, abandonando a cena do crime?
A Kitty Pride pergunta se desejo mais um elixir Havana. Digo que sim, com gelo e sem raiz forte. Não me lembro de ter bebido os outros. Há quatro copos vazios sobre a mesa. Um menor que o outro. É como se meu dia tivesse começado agora. Vejo um revestimento de tecido verde musgo dobrado no banco da frente. Talvez seja meu, combina com o visual de um detetive. Revisto-o. Sinto um objeto pesado no bolso interno e descubro que é um pacote de envelope pardo amassado com uma pistola automática prateada dentro. Toda ensangüentada. Uma arma no bolso do meu revestimento. Quem teria colocado ela ali? Eu nunca tive uma arma, nem sei atirar. Está suja de sangue. Revisto o cartucho e está carregado. Preciso descobrir quem tramou isso tudo. A luz é fraca na minha cabeça. O foco está mais para abajour de insetos. Pequeníssimos dragões libélulas sobrevoam o salão. Meus batimentos cardíacos aceleram. Algo de muito sinistro aconteceu e eu não faço idéia o que seja. Lembro que possuo uma tela portátil. Procuro no bolso da calça e a encontro. Procuro no catálogo de endereços o nome de minha esposa. Tento uma conexão, mas cai na mensagem gravada. 


Kitty Pride serve meu elixir. Eu agradeço e pergunto onde é o evacuador. Do outro lado do salão – ela me diz, exibindo um sorriso fluorescente. A mulher maravilha desfocada acena para a garçonete e pede mais uma taça de vinho. Começa um show no palco central. Um Noturno endiabrado com pele pintada de azul surge de baixo do palco, através de um elevador. Ao lado dele estão Mística, Tempestade e Emma Frost em trajes sensuais. Sobe junto uma espessa fumaça de gelo seco. Preciso chegar até o evacuador para jogar um líquido na cara. Mas fica difícil atravessar por que os nerds devassos invadem o salão, saem de suas mesas e chegam perto das dançarinas x-women. Emma Frost faz pole-dance enquanto a Tempestade evoca nuvens escuras e trovões em volta do palco. Um furacão absurdo faz os papéis, filipetas e guardanapos voarem. Voam também algumas notas de vinte e cinqüenta reais que os clientes jogaram sobre o palco. Então o Noturno pauzudo esfrega sua piroca hieroglífica na pele azul da Mística, que se agacha e faz um sexo oral mutante totalmente libidinoso nele. Depois Emma Frost arremessa partes de seu minúsculo biquíni glacial para os nerds que quase se matam para pegar. Os garotos jogam-se no chão, derrubando seus óculos e comunicadores, totalmente desesperados. Puxam o pequenino tecido, um de cada lado. O mais forte acaba ficando com o pedaço de pano.
Estou agora no banheiro. Líquido na cara. Não reconheço meu rosto no espelho. Estou no corpo de outra pessoa e não me avisaram. Ou se avisaram, eu não me lembro. Pareço alguns anos mais velho. Minhas orelhas estão maiores do que as de um Basset Hound. Minha monolítica cabeça dói. Algo está assustadoramente estranho. Limpo o sangue das mãos na gosma incolor do aparelho. Não consigo lavar bem. Volto até a mesa. Pago minha conta com as notas que encontro na carteira, visto o revestimento, chapéu e saio.
Estou na região dos mais inóspitos centros de lazer da galáxia. Vagabundos e meliantes cruzam as calçadas num vai-e-vem blade-runnereano violento. Tento equilibrar-me dentro de um corpo estranho. A realidade parece alterada e desfocada. Meu corpo está alongado demais para o calçado que uso. Não sei dizer se a mulher-maravilha era real. Não faz sentido um personagem da DC dentro de um bar da Marvel. Veículos sucateados passam no sinal vermelho puxados por dinossauros. Uma hit-girl anã faz showzinho no sinal executando malabarismos com uma lança em chamas, depois passa um coturno entre os carros para arrecadar moedas. Atravesso na faixa, e vou em direção à Praça 55, o endereço escrito no papel. Talvez as respostas que procuro estejam lá. 

Chego ao edifício 55. Olho para cima e vejo uma escada externa na parte da frente. Lembro da cena do chapeludo escapando pela janela. Talvez seja o assassino da garota de camisola transparente. Quem é a garota de camisola transparente morta? Não há porteiro no edifício. Tento o sensor e abre sem problemas. Subo as escadas. Há um rastro de sangue no segundo andar que leva até o módulo 22. Por precaução, pego a arma que encontrei no bolso do casaco. Engatilho-a. Não tenho habilidade com armas, nunca precisei usar uma. Como posso ser um detetive se não sei portar uma arma? Se eu for realmente um detetive, saberei desvendar este crime. Tento a chave do pequeno envelope na porta e o trinco gira. Finalmente as coisas começam a fazer sentido. Empurro levemente a porta que abre sem ranger. Talvez eu esteja mais perto da solução do mistério. Vejo passos de sangue no carpete da sala. Aparelho holográfico ligado. Marcas de sapato tamanho 41. Alguns porta-retratos abaixados – sinal de remorso. O assassino conhece a vítima. Sigo os sinais que levam até o quarto, tomando cuidado para não esbarrar em nada. Ando em silêncio, pois o assassino pode ainda estar aqui dentro. É certamente o mesmo quarto da projeção. Como posso ter imaginado isso tudo? Vejo a mesma janela aberta com cortina transparente esvoaçante. Olho para a garota morta e vejo que é minha esposa. Meu Deus! Co-autores invadem o apartamento repentinamente e me arremessam no chão. São muitos. Com coletes à prova de bala, espingardas, rifles. Ordenam-me largar a arma e rapidamente me algemam. Eu tento avisá-los que o bandido escapou pela janela – o sujeito taciturno usando chapéu. Mas eles não acreditam em mim. Falo do envelope pardo com a chave colocado no meu bolso, da arma ensangüentada, das filipetas X-Man. Eles parecem não querer me ouvir. Preciso de um advogado. Vai ser uma noite daquelas! Preciso descobrir quem filmou isso tudo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Matador



Estou no ônibus indo para o centro e vejo um matador de aluguel em pé, com mochila nas costas. Só pode ser um matador. Bombadão, com músculos definidos e veias saltando nos braços. Tatuagem de águia no bíceps esquerdo. Tattoo antiga, levemente apagada pelo tempo e feita por tatuador vagabundo. Está escrito “Cobra d água” na mochila, mas eu só consigo focar na palavra cobra. Codinome de assassino. Talvez ele trabalhe para a máfia chinesa. Cobra é coisa de chinês. Usa boné para esconder o rosto. Não consigo ler o que está escrito. A luz do sol bate na lateral direita do ônibus e o cara está de costas. Eu conheço um mercenário quando vejo um. Garanto que carrega um rifle automático na sua imensa mochila de montanhismo. Deve estar desmontado. Talvez ele vá matar alguém agora, alguma encomenda no centro. Subirá num prédio pela escada de incêndio e ficará de espreita na cobertura, para acertar o alvo na hora certa entre o horário do almoço e o ínicio do expediente da tarde. Ou invadirá a casa do cliente, entrando disfarçado com uniforme da COPEL ou coisa do gênero. 
Agora o ônibus chega ao ponto final. Espero ele descer e vou atrás. Vejo que ele usa coturno. Coturno é coisa de matador. Coturno, mochila Cobra, boné discreto, tatuagem de águia e veias saltando no braço. Só pode ser matador. Ele atravessa a rua, entra numa casa de fumo barra pesada e eu vou atrás. A casa de fumo chama-se Casa do Fumo e possui todo tipo de charutos e tabacos mundiais. Você entra e sente o cheio de fumo tradicional misturado com baunilha, chocolate, cereja... Imensos potes de vidro com substâncias tabagistas de todo o tipo. Além disso, outras quinquilharias inesperadas tipo materiais de pesca, acessórios de acampamento, vassouras, panelas e isqueiros de todos os tipos. Todas as lojas do centro são meio 1,99 hoje em dia. Ainda mais as casas de fumo, alvo de preconceito e militância. O centro é cheio de micromundos secretos. Talvez o fumo seja só fachada. Pode se tratar de uma micro indústria robótica chinesa ou uma loja de armas de guerra coreanas. De repente o contratante dele trabalha aqui. Pode ser o senhor do caixa, o de camiseta Blindagem e cabelos longos grisalhos. Fico de olho no corredor ao lado, observando seus movimentos entre os anjinhos de gesso na prateleira. Na prateleira das facas, ele escolhe um cutelo e caminha até o caixa. Sabia! Ele só podia mesmo ser um matador. Finjo que quero um isqueiro, peço para o garoto atrás do balcão e ele me traz um mostruário com centenas de modelos. Tomb Raider, True Blood, John Constantine, Robocop, Meninas Superpoderosas, Lost, Spawn… Modelos em forma de mulher pelada, revólver, robô, moto, guitarra... E eu de olho no Cobra. Reparando se ele não recebe algum envelope suspeito ou fala alguma palavra em código para o senhor do caixa. Assassinos de aluguel adoram senhas em código e envelopes pardos. Mas nada disso acontece. Ele compra o cutelo e um charuto cubano tamanho quatro. Opa, ele gosta de charuto então. Talvez seja de Cuba, ou passou por lá. Assassinos viajam o mundo todo e não param em nenhum lugar. Ele paga as coisas, eu compro meu isqueiro – escolho o de mulher pelada, daqueles que você vira e a roupa aparece – e saímos quase na mesma hora. 
Preciso ser discreto. Segui-lo sem que ele perceba. Com matador não se brinca. Ele vira em direção a Carlos Gomes e apressa o passo. Ofegante, corro atrás sem perdê-lo de vista. Por sorte ele pára para acender o charuto, com um Zipo prateado. Depois pega a Marechal Floriano. No caminho sou abordado por dezenas de divulgadores de restaurantes a kilo e entregadores de filipetas. Sou bombardeado por promoções de restaurantes. Vou agradecendo e enfiando tudo no bolso, só não posso perder o cara. Ele continua subindo a rua em passos ligeiros. Passa pela Carlos Gomes e continua reto. Mochila Cobra e boné enfiado. Só pode ser um matador. É minha chance de conhecer um assassino. Ele entra rapidamente numa portinha discreta e eu vou atrás. Quase em frente ao painel do Poty. Deparo-me com uma escada estreita, inclinada pacas – quase noventa graus. Perco-o de vista. Uma fumaça repentina me cega e os espelhos dos degraus possuem alturas diferentes. Isso é péssimo, quase tropeço. Do topo da escada descubro um salão com várias mesas e toalhinhas. Estou num restaurante vazio e, nada do matador. Procuro-o por entre as mesas. Ainda não há clientes porque é cedo – nem dez horas. Ele não pode ter ido para outro lugar, a não ser que tenha escapado pela janela. Vou até ela e confiro que não há escada externa. Ele também não fugiu pelo beiral. De repente achou que eu era um policial disfarçado. Ando em direção ao buffet e vejo o Cobra na cozinha, através da pequena janela circular da porta rotativa. Certamente é ele! Me aproximo para observar melhor. Desembaço o vidro com a manga da camisa. Ele usa agora um traje e chapéu branco de cozinheiro e afia seu cutelo recém adquirido em frente a uma mesa cheia de legumes. Cenouras, batatas, cebolas, brócolis... Então corta uma grossa fatia de picanha em finos filés com muita eficácia. Bombadão, com músculos definidos e veias saltando nos braços. Tatuagem de águia no bíceps esquerdo. Tatuagem antiga, levemente apagada pelo tempo e feita por tatuador vagabundo. Ele não me engana. Conheço um mercenário quando vejo um. O trampo de cozinheiro deve ser só fachada!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lurdinha Asimov



Lurdinha Asimov é uma vidente do Santa Cândida, que lê o futuro em cartas de Bakugan, Jihad, Magic, Yugioh e tabuleiros de RPG. Lurdinha possui um arsenal de objetos místicos esotéricos futurísticos coletados no centro da cidade enfeitando a casa. Estátuas de Ben 10, Star Trek, Duna, Transformers e Naruto. Todo tipo de bugigangas urbanas plurisemióticas tipo controles de videogame, telejogos, Atari, óculos 3D, bonecas falantes, réplicas de jogos de tabuleiro. Logo na entrada da casa, dominada por trepadeiras, você se depara com esculturas tamanho um pra um de personagens Star Wars – Darth Vader e Darth Maul. Quando entra, você é bombardeado por imagens Sci-Fi em TV de plasma sucateadas presas ao teto por cordas formando um mosaico. O movimento na casa é intenso. Chegam e saem pessoas a toda hora. Mulheres traídas, sortistas curiosos, desiludidos, iludidos, desempregados. Todo tipo de andarilhos a deriva. Todos ansiosos por uma olhadela no amanhã. Um nome ou um número pode fazer diferença na rotina entediante do presente. Acertar uma Megasena, quem sabe. Descobrir o nome do traidor, ou alguma mentira velada. A bruxa de nosso tempo possui uma vasta biblioteca, que vai de Rafael Grampá a Lourenço Mutarelli. Nas paredes quadros de Mark Ryden, Andy Rementer e Mcbess.  
Lurdinha atende as pessoas sentada numa cadeira irmãos Campana feita de bichos de pelúcia, com um controle de X-Box para controlar as imagens. Você olha pra ela e não dá nada, cabelos longos, garotinha nova de pele parda tipo personagem de filme indiano. Usa um colar e no pingente, foto do Han Solo. Adereço Harrison Ford. Tatuagem Akira num dos braços e escrito I, Robot no outro. Mapa de Neo-Tokyo nas costas, por baixo de vestidão comprado em Calcutá. Ela vai arremessando cartas e dados sobre uma toalha com cena do filme Blade Runner. Toalha Blade Runner. Cyclóid, Sirenóid, Alpha Hydranóid - cada figura representa algo a ser interpretado. Cartas de entrada, cartas da morte. Andróides, monstros, dragões... E também lança dados, que às vezes possuem mais de cem faces. Utensílios de RPG. A análise depende da combinação das cartas e dados, qual vem antes ou depois somadas aos números e qualificações dos personagens. Lurdinha Asimov é a única vidente que consegue ler o futuro neste tipo de imagens. Ela possui um dom para manusear conteúdo Sci-Fi. Cresceu lendo Strange Tales, Weird Tales, Amazing Stories e Philip K. Dick. Trabalhou na pré-produção do filme Minority Report, por Steven Spielberg, quando morou nos EUA em 2001.
Ela não só lê o seu futuro, como o de três gerações seguintes à sua. Netos, Bisnetos e tataranetos. Ela te diz o seu tataraneto estará fazendo num dia e ano específico. Se preferir, ela muda de suporte e passa a adivinhar o amanhã na tela do videogame. Joga uma partida e vai dando a letra. Tipo ladainha relato psicografado em forma de bits e bytes. Resident Evil, God of War, Counter Strike Arkham City – você escolhe o jogo. Você joga online com suas futuras gerações. Lurdinha usa a interface do videogame como janela para o futuro para você se comunicar. Abre chat e troca uma letra. Dá até para ver a foto no perfil dos jogadores. Se preferir pode se consultar via webcam também. Lurdinha possui uma conexão 3G banda larga de alta velocidade. Está sempre conectada à internet e ao cosmos. Basta acessar seu site ou página no Facebook. Entidades mandam mensagens por e-mail com imagens anexadas. Uma das TVs da sala fica o tempo todo ligada no Cartoon Network e nos desenhos da Fox. A outra com Guerra nas Estrelas no repeat.
Nas segundas-feiras Lurdinha não atende porque é dia de ir pro centro da cidade coletar bugigangas e distribuir flyers. Seus anúncios parecem flyers de festa rock´n roll, ilustrados por clientes designers que trocam arte por informações. O velho método do escambo. Lurdinha percorre as lojas de brinquedos lado b, casas de umbanda e candomblé, camelôs, galerias subterrâneas, lojas de sucatas eletrônicas, mini indústrias robóticas escondidas. Vai comprando objetos e distribuindo propagandas. Joga tudo numa imensa sacola de feira com estampa da Pucca e Hello Kitty. Sacolão Pucca Hello Kitty. Atravessa lojas dentro de lojas perto da Zacarias e da Rui Barbosa. 


Lurdinha Asimov consegue ver muito bem o futuro em todo tipo de objeto pop descartável. Uma das técnicas que desenvolveu foi ler o futuro no resto de Yakult. Você leva a garrafinha e ela lê o seu futuro no restinho que sempre sobra. Lactobacilos vivos a serviço da futurologia. Lactobacilos informam muita coisa. Também é possível usar potinho de iogurte e Danoninho. Mas precisa ter sido ingerido pelo cliente. Esta coisa de ler borra de café é coisa do passado. Búzios e tarô também. No lugar do baralho, cartas de Bajugan, Jihad, Magic e Yugioh. Lurdinha consegue ver muito bem o futuro em todo tipo de objeto pop descartável. No lugar de conchas do mar, Lurdinha usa controles elétricos de portão. Se você quer saber o que pensam seus vizinhos de condomínio, ela arremessa os controles para você. Para dar mais certo, precisam ser controles que pertençam aos condônimos mesmo. Controles que eles carregam sempre, os objetos retêm a energia dos donos. Você pode enganá-los dizendo que vai fazer cópia e trocar o segredo do portão, por segurança. Também funciona arremessar celulares e mp3 players, de preferência sobre uma bacia comprada em loja 1,99.
Porém se a tua intenção é fazer macumba, Lurdinha também pode ajudar. Ela conhece várias receitas.  Para acalmar um inimigo, por exemplo – Pega-se uma lata de Pringles e coloca-se no seu interior 13 pendrives pertences ao desafeto. Durante três dias, à meia-noite, sacuda a lata como se fosse um chocalho, com música do Daft Punk ou Janelle Monae, pensando na pessoa. De preferência com o avatar do Facebook dele aberto na tela. No terceiro dia depois de tocar o chocalho, cutuque-o virtualmente no site e então jogue o chocalho num terreno baldio. Contra mau-olhado e quebrante – assista Blade Runner com um óculos 3D pirata comprado na Rui Barbosa ou João Negrão. Fique com ele por três dias, sem tirá-lo, inclusive na hora do banho. No quarto dia ofereça o óculos ao Bob Esponja e se possível, arremesse-o num rio ou mar. Agora se você quer esquecer um amor antigo, têm uma infalível – faça download ou insira fotos do desafeto num iPad e numa sexta-feira treze em frente a um shopping qualquer, enfie um sabre de luz jedi verde na tela e ofereça o trabalho ao mestre Yoda. Se você usar sabre vermelho, terá que ser oferecido ao Darth Vader e o seu ex pode morrer ou ficar doente.


Agora Lurdinha corre perigo, porque uma sociedade chamada Aum Shinrikyo de terroristas apocalípticos japoneses estão se sentindo ameaçados pelas antevisões da futuróloga. Eles dizem que a “verdade suprema” está ameaçada, nenhum segredo pode ser guardado perante os olhos da bruxa. O grupo ganhou notoriedade internacional em 1995, quando vários de seus seguidores efetuaram ataques ao sistema de metrô de Tóquio com o uso do gás Sarin. As bases da doutrina Aum são as escrituras budistas incluídas no cânone Pali, os textos sagrados do Budismo Theravada. Para quem não conhece a história, o grupo Aum é conhecido como uma organização budista, mas isso é só uma fachada, porque não passa de um culto destrutivo e assassino.
Oito membros da seita partem para matar Lurdinha. Invadem a casa durante a madrugada. Feito ninjas fantasmas, passam pelo Darth Vader e Darth Maul. Depois a sala com cadeira irmãos Campana e controle X-Box. Chegam até o quarto que fica nos fundos e metralham a cama com munição Uzi Israelenses. As penas do colchão voam estilhaçadas. Mas os Aum Shinrikyo subestimaram o poder de Lurdinha Asimov prever o futuro. Não só ela sabia o exato momento em que eles chegariam, como cada virada de pescoço e cada passo em direção ao quarto. Lurdinha anteveu o ataque há meses, vendo o rosto de Hideo Murai, o principal cientista da seita, num pedaço de chiclete velho grudado entre pedras de petit-pavet na XV. Além disso, teve outros sinais, como um senhor barbudo que lhe perguntou as horas num dialeto antigo no terminal Guadalupe e o desenho do rosto de Shoko Asahara, membro da sociedade, no grafite de um muro perto da Reitoria. Quando os terroristas levantam o lençol, não encontram o corpo de Lurdinha, mas sim um imenso boneco Vodu feito com objetos íntimos de cada um deles. As quinquilharias reunidas e amarradas com fio de nylon formavam um corpo tipo escultura de Vik Muniz. É uma escultura vodu Vik Muniz. Milhares de objetos pessoais tipo chaveiros, colares, brinquedos, bonés, carrinhos Match-Box, fotografias, vibradores, cuecas, meias, cigarros, canetas, estatuetas, medalhas... Pertences deles, formando um corpo do tamanho do corpo de Lurdinha, deitado de bruços, alvejado por suas balas de Uzis Israelenses. Um grande boneco vodu metralhado. Quando se dão conta da armadilha enfeitiçada, os oito homens caem mortos, um a um, atingidos pelos próprios disparos. Furados e fodidos por munição Uzi. Os corpos tombam e o sangue escorre pelo piso de madeira velho da casa. E enquanto tudo isso ocorre lá no Santa Cândida, Lurdinha Asimov medita embaixo de uma árvore no Centro Cívico, descalça, de olhos fechados, com ipod ligado, ouvindo uma música do Cee Lo Green.    

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

3



Um rapaz usando bigode postiço e camisa com estampa de aves brasileiras acaba de ser abastecido de café e uma fatia de cheesecake. Agradece à garçonete e vira o bule para encher sua xícara quando ao invés de café, é servido de uma centena de corvos que voam por toda a confeitaria, depois fogem pela porta da frente. Alguns viram papel de parede.  

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

2



Um sujeito barbudo, de terno e gravata preta, prende a bicicleta no poste e entra na confeitaria. Senta-se à mesa perto da janela, pede um café tradicional e pão com mortadela. Saboreia a refeição sem imaginar que esta cena se repetiu igualzinha no passado. Cem anos atrás, no armazém que existia neste endereço - chamado “Ganha Pouco”, um senhor também amarrou a condução no poste, sentou-se à mesa que ficava no mesmo local, e fez o mesmo pedido. A diferença é que ele usava uma cartola e ao invés de bicicleta, chegou a cavalo.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

1



O garçom leva o café tradicional e o pão com mortadela até a mesa do rapaz barbudo. Ele agradece o garçom, coloca açúcar, mexe o líquido e quando olha para dentro da xícara, vê outro rosto no reflexo do café. Vê a cara de um bigodudo estranho no lugar da sua. Como pode? Chama o garçom. Reclama. Diz que quer um café com o seu rosto no reflexo. Onde já se viu? O garçom pede desculpa e diz que pode ter trocado os pedidos. E realmente – o café do barbudo estava na mesa do lado, onde um sujeito bigodudo já se preparava para bebericá-lo, sem perceber o engano. Pede desculpas de novo e conserta o erro, trocando as xícaras. Agora sim. O rapaz barbudo olha pro líquido e vê o próprio rosto no reflexo do café tradicional. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Mistério Helicoidal



A atriz Isabelle Dupont foi encontrada morta num dos aposentos do palácio Chambord e quando o detetive Charles Brun entrou no prédio, o assassino ainda se estava lá afirma Luc Dubois, o inspetor da polícia. Dupont teria sido a quarta vítima de uma série de assassinatos daquele fatídico mês. Todas as mortes foram atribuídas ao mesmo assassino, apelidado na impressa como Étrangleur des trois – porque atacava sempre no mesmo horário, perto das três da tarde.
O Palácio Chambord foi residência de muitos reis, entre eles Gaston Duque de Orleães, Stanislas Leszczynski o rei deposto da Polônia e Elias príncipe de Parma. Localizado em Loir-et-Cher, França, é composto por uma fortaleza central com quatro imensas torres baluartes nos cantos. A fortaleza também forma parte da fachada, a qual tem uma largura composta ainda por duas torres mais largas. Na parte de trás encontram-se bases para duas futuras torres, mas estas nunca foram desenvolvidas, e mantêm o mesmo nível do muro. O palácio contém 440 salas, 365 lareiras e 84 escadarias. Verdadeiro labirinto arquitetônico. Quatro abóbadas retangulares, uma em cada piso, formam uma cruz. A escada principal foi supostamente idealizada por Leonardo da Vinci. E foi justamente neste local que o assassino de Isabelle Dupont enganou o detetive Charles Brun. A escada foi construída em formato de duplo-hélice. São duas escadas helicoidais, vulgo caracol, em um mesmo eixo, ou seja, se uma pessoa subir em uma delas, e a outra descer pela outra não vão se encontrar no meio. As pessoas de fora conseguem ver os que sobem ou descem, mas estes jamais se cruzam.  
O assassino de Dupont ainda estava no palácio quando o detetive Charles Brun estava prestes a capturar o serial-killer mais procurado da França.  A polícia francesa convenientemente bloqueou as saídas do prédio. Brun adentrou sozinho. Quando Brun chegou à sala de música, encontrou Isabelle morta. Havia sangue por tudo, mas nem sinal do assassino. Mais tarde o inspetor Luc Dubois afirmou ter visto do térreo, um sujeito taciturno descendo as escadas ao mesmo tempo em que Brun subia. Quando questionado porque não tentou prender o suspeito, Dubois disse que o rapaz parecia um visitante qualquer, de blusa de moletom e não usava nenhum tipo de máscara escondendo o rosto.
Brun e os peritos “varreram” o palácio de cima a baixo procurando rastros, mas a única pista significativa mesmo foi uma pegada número quarenta e um, que no Brasil representa o número quarenta, porque o sistema de numeração é diferente. Dupont foi morta estrangulada com um fio de aço, como as outras vítimas. Os peritos fotografaram, passaram Luminol e entrevistaram os funcionários. Quando anoiteceu, Brun foi para casa, frustrado, é claro, por não ter conseguido impedir mais um assassinato do maníaco. Étrangleur des trois já era, claramente, sua nova obsessão. A vida de um detetive nada mais é do que a arte de administrar obsessões. 


Brun mora no Cinquième, perto do Arènes de Lutèce, e do Museu Nacional da Idade Média. Levou mais ou menos uma hora para chegar em casa. Despiu-se, tomou um copo de leite, encheu o pote de seu gato, Dupin, com ração e foi dormir. Sempre demora a pegar no sono, porque fica ruminando os casos enquanto cozinha os miolos em baixa temperatura. Explodiam flashs dos cômodos do palácio. Brun subiu e desceu diversas vezes a escada helicoidal de Da Vinci, na mente, antes de pegar no sono.
Quando abriu os olhos e olhou para o relógio, acordara no mesmo dia do assassinato de Isabelle Dupont e era antes das três. Não entendeu como poderia ter acontecido aquilo. Acostumado a prever todos os passos na noite anterior, Brun talvez tivesse vivido na mente toda a perseguição e então ela não teria realmente acontecido ainda. Ou Deus teria lhe concedido uma segunda chance de pegar o assassino, subindo pelo outro lado da escada desta vez. Vestiu o terno e saiu sem beber nada. Em menos de uma hora estava novamente no hall do Palácio Chambord, exatamente como previu na tarde anterior. Parou em frente à escada helicoidal de Da Vinci e pensou numa terceira possibilidade. E se por um golpe fantástico, a realidade se duplicou e criou assim duas realidades? Se for isso, Brun deveria subir pelo mesmo lado da escada que havia subido no dia anterior, para surpreender o assassino. E foi realmente isso o que ele fez. Exatamente às três horas subiu pelo mesmo lado da escada em que havia subido e trombou com Étrangleur des trois no meio do caminho. O serial killer conseguiu desarmá-lo com um empurrão e a pistola de Brun girou pelos degraus abaixo. Os dois lutaram bravamente. Étrangleur tinha uma faca, que logo foi derrubada do parapeito por um golpe de Brun, que em seguida  acertou-lhe o estômago com um o joelho. Brun levou um soco e rolou, mas conseguiu desta forma pegar o revólver e atirar no estrangulador, que caiu do parapeito e morreu na queda. Logo chegaram os policiais e interditaram o prédio. O inspetor Luc Dubois viu toda a cena e assim que subiu ao encontro de Brun, perguntou como ele sabia que o assassino ainda estava no prédio e que desceria por aquele lado da escada. Brun respondeu ofegante, que o assassino caiu numa cilada. Numa armadilha helicoidal. E restou a ele, apenas apertar o gatilho na hora certa.