quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tentáculos



Todos ficamos impressionados quando chegamos à praia e vimos os grandes tentáculos que surgiram atrás das ondas. Bela paisagem. Articulados e violentos, batiam forte na água quando desciam, formando ondas enormes. Algumas pessoas voltaram para os módulos. Outros sacaram rapidamente suas telas portáteis e dispararam flashs. A maioria armou os protetores mesmo assim. No começo a euforia foi geral, mas aos poucos foram retomando a rotina de bronzeamento e caminhadas.
Eu, na companhia apenas de um charuto e uma estrutura retrátil, sentei e contemplei o espetáculo das criaturas que surgiam e mergulhavam no imenso mar azul.
Depois chegaram repórteres, helicópteros, videomakers, jornalistas. A praia encheu. Nunca vi tão agitada. Provavelmente atraídos pelo balé dos tentáculos. Vários cinegrafistas, filmando por toda a extensão da praia. Alguns turistas punham a culpa na administração: “Onde já se viu! Isso é obra do governador! Garanto que está levando algum nisso.” “Fez para atrair mais turista!” “Quem sabe sejam até andróides.”
No átrio do módulo que eu estava, encontrei os moradores reunidos em volta da TV para assistir a notícia no jornal. Amigos e parentes me mandaram mensagens via HMS, alguns até preocupados. Postei as fotos, enviei por holografia. A reportagem mostrou uma caravela sendo destruída. Meu amigo Lord Velprost me ligou de outra cidade comentando a notícia e disse que eu deveria escrever uma crônica, que era uma experiência fantástica. Ele tinha razão. E eu, que tinha prometido me distanciar da tela nas férias, escrevi as impressões no meu Moleskine.
Achei que o espetáculo só duraria um dia, porém na manhã seguinte, para minha surpresa, as criaturas continuavam lá. Alguns veículos de pesca tiveram que mudar a rota e a cidade naturalmente começou a inchar, dia após dia. A notícia se espalhou pelos canais. A informação foi compartilhada nas redes sociais. Até na China repercutiu. Milhares de pessoas viajaram para ver. A praia virou um inferno. No terceiro dia apareceram vendedores de superpeles, bibelôs, lembrancinhas. Era muita gente, começou a ficar impraticável. Os mergulhadores encravaram placas com ícones de tentáculos por toda a praia. As barraquinhas venderam como nunca. Quase não havia espaço na areia para abrir uma estrutura. Todos tirando foto para publicar no Facebook.
Tivemos que nos habituar com os tentáculos, assim como alguém se acostuma com um novo animal de estimação. Ou quando uma casa tradicional é destruída para construir um edifício moderno no lugar e muda a paisagem.
E aquilo que parecia durar a temporada toda, variou. Quando cheguei à praia, quatro dias depois, não havia mais tentáculos nas ondas. Deparei – me com extraordinários dragões, sobrevoando a areia, lançando chamas e derretendo os protetores.

2 comentários:

  1. Muito bacana cara! Pelo visto a viagem à praia rendeu muitas ideias mesmo! No aguardo de mais textos de "Fabz vai à Praia"! Abs!!!

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  2. Aposto que a praia era Piçarras. Era ali que os nazi iam aportar durante a segunda guerra. Tinham até comprado muitas terras por ali. Durante a terceira eles já haviam instalado os cabos submarinos. Como veio a quarta guerra e eles perderam para as torcidas organizadas, os cabos nem foram usados. Agora, nesta quinta guerra, a gente fica sabendo que os cabos se soltaram da plataforma, cheios de mariscos e outros seres grudados. Que visão tentacular!
    jmarins

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