terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Playground


 É bem legal na chácara do meu primo Léo porque tem muitos lugares misteriosos pra gente descobrir. Com bolachas e suco na mochila, saímos pra explorar. O dia tava ensolarado e o céu de brigadeiro - como diz minha mãe. Passamos rios, milharais, plantações e uma floresta. Já estávamos longe da sede, quando vi um playground do outro lado das colinas e avisei meu primo: “Veja cara! Os brinquedos parecem abandonados, com bastante mato em volta.” O Léo não sabia quem construiu. Não parecia arte do tio Nilo, nem do Neto. Então disse: “Vamos até lá!”, e ele respondeu: “Com certeza, o churrasco ainda vai demorar pra ficar pronto.” Quando chegamos perto, vimos que não era um playground comum. Os brinquedos eram bem maiores que o normal! Praticamente tínhamos que escalar os degraus para chegar até o topo do escorregador. Lá de cima da colina, onde estávamos, não tinha percebido isso. Meu pai me ensinou que isso se chama perspectiva. É como avião. Parece pequeno de longe, mas quando você vai chegando perto, descobre que é muito maior. Enquanto eu subia no carrossel, o Léo empurrava de baixo. Na balança eu tinha que me segurar bem às ripas para não cair pela fresta que se transformou num buraco imenso. Fazia um barulho horrível de ferrugem e as correntes estavam gastas. O clima era sinistro. Passarinhos enormes pousavam nas hastes. Um outro volteava e dava rasante. Já o Léo ficou cabreiro com os bichos cabeludos que subiam pelos ferros e depois viravam mariposas. Então sentimos que algo realmente assustador se aproximava. O chão tremia. Eu falei pro Léo: “Vamos sair daqui. Estou com medo.” Mas era tarde. Crianças gigantes apareceram rapidamente de trás das colinas. Eram três ou quatro. Sardentas e ruivas, como nós. Corremos, mas elas nos alcançaram fácil. Viramos brinquedos em suas mãos grandes e gordas. Nos jogaram no escorredor como insetos, puseram para equilibrar nas barras grossas do trepa-trepa e nos arremessaram no ar várias vezes. De repente, resolveram ir embora. Jogaram eu e Léo dentro do bolso da bermuda, no meio de balas e chicletes enormes. Então eu ouvi uma delas gritar: “Olhem, têm um outro playground lá longe, depois daquela colina!” E pelo movimento, acho que corriam. Me senti dentro de uma máquina de secar roupa. Alguns segundos depois pararam e pude ouvir um deles falando “Não é um playground comum! Os brinquedos são muito maiores que o normal”. 

2 comentários:

  1. Agora sim cara, acho que essa é a versão definitiva, eu sempre gostei deste começo! Abs!!!

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